A primeira coisa que clama atenção quando se entra na casa do escritor Edson Nery da Fonseca, em Olinda, é o cheiro de gato. São nada menos que 21 felinos, deitados no chão ou trepados em sofás, e nos raios de sol do entardecer que atravessam diagonalmente a janela vemos incontáveis pelos flutuando. “Herdei o gosto por gato da minha mãe”, conta. “Quando ela morreu, a gata dela morreu três dias depois. Isso me deixou encantado com os gatos.” Nery, como todo mundo o chama, também herdou da mãe a religiosidade. Durante as quase três horas em que falou ao Estado, ele interrompeu a entrevista apenas duas vezes. Uma foi para servir às visitas baba de moça, um doce típico de coco e ovo. A outra foi para receber a bênção do diácono, que todos os dias às 18 h vem rezar uma oração e lhe oferecer uma hóstia.
“Sou oblato beneditino”, diz com orgulho, referindo-se ao fato de pertencer à comunidade do Mosteiro de São Bento. “Tenho até a chave do claustro, mas não consegui ser monge.” Nery entoa sua prece, convicto e comovido, e afirma que foi por isso que decidiu passar os últimos anos de vida aqui, na Rua São Bento, 90, no centro antigo, a meros cem metros do mosteiro célebre por seu suntuoso altar barroco. É uma rua de casario colonial colorido e paralelepípedos, na qual caminhar é hoje para ele um ato de sacrifício. Aos 88 anos, completados em 6 de dezembro, Nery precisa recorrer a um andador de metal para locomover seu corpanzil de 1,89 m.
A altura também foi herança do lado materno: a avó, Elisa Herlich, nasceu em Newcastle. Fisicamente, Nery parece em muitos aspectos um inglês; além de alto, tem os olhos azuis e a pele rosada dos anglo-saxões. Mas, na cabeça e sobretudo no coração, é um pernambucano tradicional – tão tradicional quanto era seu melhor amigo, Gilberto Freyre (1900-87). Foi apresentando um documentário de Nelson Pereira dos Santos sobre o mestre de Apipucos que Nery passou a ser conhecido de um público mais amplo, que logo se encantou com seu charme de contador de histórias, dono de memória impecável que vai de detalhes quase frívolos a citações de toda espécie, em particular os versos.
Foi lendo versos, por sinal, que Nery encantou mais jovens na Festa Literária de Paraty (Flip) no ano passado; suas lembranças e declamações de Manuel Bandeira (1886-1968) foram o ponto alto da homenagem. “Eu tinha tudo que foi escrito por e sobre Bandeira”, diz. “Só de um outro poeta posso assegurar o mesmo: Fernando Pessoa.” (Na próxima Flip, que homenageia Freyre, Nery não acredita que poderá estar, devido a suas condições de saúde.) Sobre Bandeira, conta que as alunas gostavam tanto dele que cantavam: “Olê, Manuel Bandeira/ Olê, Manuel Bandá/ Tu me ensinas a fazer verso/ Que eu te ensino a namorar.”
Essas histórias e amizades foram narradas por ele num livro lançado no fim do ano, Vão-se os Dias e Eu Fico (Ateliê Editorial, 224 págs., R$ 39,90), título – não à toa – derivado de um poema, Le Point Mirabeau, de Apollinaire (“Les jours s’en vont, je demeure”). Nery conta sua vida mais ou menos cronologicamente, intitulando quase todos os capítulos com a locução “Por que” (“Por que não sou monge beneditino”, “Por que passei a residir em Olinda”, etc), e apenas falha em ser breve demais, sem o mesmo colorido e humor de sua conversação oral – para a qual, de resto, muitos acreditam que apenas o escritor e jornalista Otto Lara Resende (1922-92) foi páreo.
Pois nomeie um grande intelectual ou escritor brasileiro e Nery o terá conhecido: Drummond (que só teria tido a felicidade sexual fora do casamento), João Cabral, Guimarães Rosa, José Lins do Rego (com quem almoçava aos domingos), Carlos Lacerda (“Me visitou várias vezes”), Bandeira, Otto Lara... De Álvaro Lins (1912-70), o excelente crítico literário, jornalista e diplomata pernambucano, foi aluno no colégio, e a ele dedica muitas páginas do livro de memórias. “Ele era um grande professor, que inspirava os estudantes”, recorda. “Sua interpretação de Eça de Queirós me marcou para sempre.” Para o seminarista que desistiu de ser padre porque se revoltou com o autoritarismo dos professores jesuítas, a literatura se tornara devoção.
Nery cursou a Faculdade de Direito do Recife, mas não a concluiu, sob desculpa de servir ao Exército; e depois a trocou pela Biblioteconomia no Rio de Janeiro, onde se formou em 1946, período em que assinou resenhas literárias. Por estes caminhos teve contato com outro ídolo, Otto Maria Carpeaux (1900-78), crítico austríaco radicado no Brasil, que o indicou para estágio na biblioteca da FGV do Rio. No lado esquerdo da grande sala de Nery, nota-se um vazio com marcas paralelas no chão. É que ali estava até há poucos meses sua lendária biblioteca de 15 mil volumes, adquirida – para felicidade de Nery – pelo mecenas Ricardo Brennand (irmão do escultor Francisco Brennand), a qual incluía uma “freyriana” de 500 volumes.
Freyre, afinal, foi de todos eles aquele com quem Nery mais conviveu; e, afora alguns textos didáticos sobre Biblioteconomia, foi o tema da maioria dos livros – como Gilberto Freyre de A a Z (Topbooks) – escritos por Nery, que, apesar de sua paixão pela poesia e prosa, jamais fez um livro à altura de seu talento com as palavras. Uma coletânea de Freyre, por sinal, deve ser o próximo trabalho publicado de Nery: a Fundação Gilberto Freyre pretende lançar os ensaios do autor de Casa-Grande & Senzala que tratam de Joaquim Nabuco, cujo centenário de morte ocorre este ano. Nery conta que certa vez visitou o Engenho Massangana, onde Nabuco viveu até os 8 anos, a cerca de 50 km de Recife, e decidiu reler no local o famoso capítulo de Minha Formação, em que o abolicionista evoca a infância de uma suavidade perdida. “Cheguei a chorar ao reler essas páginas ali”, diz Nery.
Quanto a Freyre, Nery o chama de “um sedutor”, justamente por seu modo de lidar com as pessoas, carismático e conciliatório. “Era muito vaidoso também”, acrescenta, especulando que um dos motivos para ele ter apoiado o regime militar de 1964 era o desejo de ser governador de Pernambuco. Também confirma, na qualidade de “confidente” do sociólogo, que Freyre teve experiências amorosas com rapazes quando foi estudar na Alemanha, conforme relato a ser lançado em livro neste ano. “Ele nos seduzia tanto por suas ideias originais como por seu estilo muito pessoal”, diz Nery. “Era um cavalheiro.”
Mas nem tudo na vida de Nery foram rodas literárias. Como organizador de bibliotecas, trabalhou em diversos Estados, deu aulas na Universidade de Brasília e atuou na Fundação Joaquim Nabuco. Talvez por isso foi parar em Guiné-Bissau, em 1976, a convite da Unesco, e lá sofreu muito com o fracasso de sua missão e com a visão dos africanos subnutridos. (Em compensação, a Unesco também o mandou aos EUA, país que aprendeu a admirar exatamente pelo respeito à arte da Biblioteconomia.) No livro, Nery conta que antes, na juventude, pensou seriamente em servir ao Exército, mas igualmente não se deu bem com “os excessos da hierarquia”. Diz, por sinal, que o outro autor de quem e sobre quem leu tudo não era um poeta: T.E. Lawrence. “Sou obcecado por Lawrence da Arábia. Mas não sei bem o porquê.” Não é difícil desconfiar.
O livro revela ainda a inclinação sexual de Nery, mantida sempre em recato. Num dos capítulos, “Por que nunca me casei”, ele relembra seus amores homossexuais, as rejeições que fez mulheres sofrerem e as rejeições que sofreu de homens mais novos. Em seguida, na série de “Evocações”, começa por sua mãe, Maria Luísa, e faz a reafirmação de sua fé católica – a qual diz que Álvaro Lins perdeu porque “sua formação religiosa não teve profundidade”. Aqui, entre gatos e memórias, entre doces e livros (estava lendo e aprovando a biografia de Clarice Lispector por Benjamin Moser), à mercê de sua “propensão à melancolia”, já livre de desejos aventureiros, ele parece viver quase como monge. Mas os monges não viveram tanto.
(por Daniel Piza, Seção: livros 15:01:25)
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